Harun escolheu o homem mais rápido do pátio. Chamava-se Ishan. Corria entre fileiras como vento baixo, atravessava lama sem perder equilíbrio e saltava sobre escudos caídos com a leveza insolente dos que ainda não aprenderam o preço da própria habilidade.
Todos esperavam que Harun o elogiasse. Harun entregou a ele uma pequena tigela cheia de água.
“Leva até a marca.”
No outro lado do pátio havia uma pedra escura. A distância era curta. Ishan sorriu.
Harun acrescentou: “Sem derramar.”
Na primeira tentativa, Ishan olhou para os homens que observavam e derramou água antes da metade do caminho. Na segunda, fixou tanto a tigela que tropeçou. Na terceira, tentou controlar respiração, passo, pulso, o olhar de Harun, o julgamento dos colegas e a lembrança das falhas anteriores. Derramou ainda mais.
Alguns homens riram. Harun não.
“Tu corres melhor que todos eles”, disse. “Mas tua atenção é governada por tudo que toca tua vaidade.”
Na tentativa seguinte, Harun caminhou ao lado dele. Mandou que não olhasse para a água nem para os homens. Ishan perguntou para onde deveria olhar.
Harun apontou para a pedra: “Para o destino da ordem.”
Ishan chegou tendo perdido apenas algumas gotas.
Harun tomou a tigela e ensinou que concentração não é apertar a mente contra uma coisa. É submeter os movimentos dispersos a uma direção única. Olhar para o objeto, para a plateia ou para o próprio desempenho pode igualmente se tornar dispersão quando cada estímulo passa a governar o centro.
À noite, Ishan voltou sozinho ao pátio e repetiu o trajeto. Derramou menos. Harun o observava da sombra.
“Conseguiste porque ninguém te via. A força que depende do silêncio do mundo ainda não é tua.”
Essa frase se tornou a primeira linha do registro da força psíquica.
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