Ishan chegou à Casa das Muitas Mãos no fim de uma tarde sem vento. Por dentro, ela parecia maior do que o mundo.
Ele disse a Harun: “Quero ultrapassar o limite daquilo que consigo perceber.”
Harun não respondeu. Conduziu-o por um corredor estreito até uma sala vazia. Havia uma única vela no centro, uma parede de pedra e nenhuma janela.
“Senta.”
Ishan sentou. No início viu apenas a chama. Depois percebeu o próprio corpo. Depois o som distante do corredor. Depois uma vibração fina no centro da cabeça, quase como se sempre tivesse estado ali e apenas agora tivesse adquirido contorno.
A vibração cresceu à medida que ele a observava.
Atrás da chama, nove portas pareceram desenhar-se no ar. Não eram portas de madeira. Eram possibilidades: modos diferentes de perceber, compreender e organizar aquilo que surgia.
Ishan inclinou o corpo para a frente.
Harun disse: “Toca a parede.”
Ishan estendeu a mão. Pedra fria.
“A chama?”
“Quente.”
“O que há dentro?”
“Vibração.”
“O que há fora?”
“Pedra. Vela. Sala. Teu corpo diante de mim.”
“Quem percebe?”
Ishan tentou responder depressa, mas a resposta não veio como frase. Veio como evidência silenciosa: havia a experiência, havia o mundo, e havia a capacidade de reconhecer ambos.
“Eu percebo.”
As portas não desapareceram. O que desapareceu foi a necessidade de correr para dentro delas.
Harun pegou uma pequena lâmina de bronze e colocou-a ao lado da vela.
“A lâmina não serve para cortar a experiência. Serve para cortar a confusão. Se uma sensação surge, percebe-a. Se um símbolo surge, lê-o. Se uma hipótese surge, examina-a. Se uma direção surge, testa-a. Não entregues a mesma coroa a coisas diferentes.”
Ishan voltou à vibração. Ela estava mais nítida. Dessa vez, porém, a sala também estava mais nítida.
Harun disse: “Este é o primeiro paradoxo da percepção: quando há profundidade, o mundo não precisa ficar menor.”
Ishan respirou sem método especial. A chama moveu-se. A sombra de Harun atravessou a parede.
“E as nove portas?”
“Uma para cada função que ainda confundes com poder. Percepção. Distinção. Silêncio. Vontade. Unidade. Atenção. Disciplina. Obra. Retorno. Quando souberes atravessá-las sem te perder, outras aparecerão.”
“E quando eu chegar ao fim?”
Harun sorriu de um jeito quase imperceptível.
“Quando deixares de perguntar pelo fim e começares a perguntar qual capacidade ainda não consegues sustentar.”
A vela continuou tremendo. A vibração também. Mas, pela primeira vez, o interior e o exterior pertenciam ao mesmo campo.
◆ ◇ ◆
A primeira iniciação não é ver mais. É perceber sem desaparecer dentro daquilo que se vê.
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